Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

A "liberdade condicionada" de Miles Davis (1)

(in DNmais, suplemento do Diário de Notícias, 02.05.1998)

 

 

 

É já um lugar comum afirmar-se que, ao longo de uma carreira musical exemplar, sobretudo a partir do momento em que o seu estatuto de criador começou a ganhar progressiva consistência  – na passagem do jazz clássico para o jazz moderno, enquanto protagonista de primeira linha do movimento do bebop –  Miles Davis nunca deixou de se afirmar, com a maior naturalidade, como um dos mais geniais criadores desta música, sempre na crista das grandes viragens estéticas e do aprofundamento destas.

 

Mas a generalidade dos críticos e historiadores parecem estar também de acordo a propósito de uma excepção a esta regra, a qual corresponde a um período particular no seu percurso artístico:  o trompetista jamais terá demonstrado a intenção de acompanhar os reflexos, no plano artístico, das convulsões sociais e políticas com as quais, entretanto, não deixara de se identificar no plano cívico.  Convulsões amplamente reflectidas na revolução do free-jazz que, na passagem dos anos 50 para os anos 60 e com consequências amplamente visíveis  (e audíveis)  em quase toda a década de 70, em grande medida configuraram nesse período histórico a vanguarda da música afro-americana.

 

Sendo certo que esta análise parece traduzir com correcção o percurso artístico de Miles Davis, precisamente na fase em que a expressão da sua maturidade se configurava em definitivo  (aos 39 anos de idade),  não é menos certo que ela foi sendo avançada com base no voraz acompanhamento e fragmentado conhecimento dos múltiplos acontecimentos que, naqueles vários planos, se sucediam e rapidamente faziam opinião, sem qualquer possibilidade prática de distanciação e recuo.

 

Em meados dos anos de 1960, a luta social e política alastrava, de forma impetuosa, pelas ruas da América.

No campo da música afro-americana, o free-jazz constituía o reflexo deste protesto galvanizador.

Mas Miles, o aristocrata, traduzia o fragor desses tempos ensaiando caminhos alternativos.

São esses caminhos que estas gravações,

reeditadas em 1998 nos desvendam.


 

 

Hoje, em moldes mais seguros e firmes e sem as naturais apreciações apaixonadas inteiramente justificadas pela intensa vivência e exaltação desses tempos, a clarividência e a razoabilidade dos juízos são porventura mais facilitadas pela análise e estudo que o programa de reedições da obra do trompetista nos proporciona.  Entre estas, assume particular relevância a presente publicação integral das gravações de estúdio realizadas para a Columbia entre Janeiro de 1965 e Junho de 1968, já que nos desvenda, em todo o esplendor, um período particularmente estimulante da postura de Miles Davis enquanto criador individual e supremo organizador de formas colectivas de criação, afinal altamente atento aos sinais de ruptura que se multiplicavam à sua volta.

 

 

Aqui se concentra todo o material gravado para os álbuns E.S.P., Miles Smiles, Sorcerer, Nefertiti e Miles in the Sky, bem como parte substancial dos álbuns Water Babies e Filles de Kilimanjaro.  Além disso, sendo significativa a parcimónia dos chamados takes alternativos, já que alguns destes álbuns resultam de um conjunto de tomadas de som únicas (!), estão aqui inseridas algumas preciosidades discográficas, tais como versões integrais de faixas anteriormente apenas conhecidas em edição montada ou outros títulos isolados mais tarde publicados em compilações muito diversas, assim como faixas até hoje inéditas resultantes de ensaios de estúdio ou de composições apenas esboçadas e que nunca antes tinham visto a luz do dia.

 

O amador de Jazz que conheça a surpreendente caixa há dois anos editada pela Columbia com as gravações realizadas ao vivo, em Dezembro de 1965, no clube Plugged Nickel de Chicago e que agora possa fazer uma comparação com as gravações de estúdio, suas contemporâneas, presentes nesta luxuosa reedição, constatará afinal que se confirma a ideia de sempre terem coexistido, na produção artística de Miles, duas situações distintas que não deixam de ser complementares. Por um lado, a segurança de que ele procurava rodear-se nas suas actuações em público, mantendo ainda um repertório anterior mas subvertendo-o à luz de um novo entendimento técnico-musical, em grande parte catapultado pelos novos talentos musicais que ia incorporando nos seus grupos;  e, por outro lado, a experimentação controlada das mudanças qualitativas que, de forma paulatina, com eles ia empreendendo e aprofundando em estúdio.

 


É a simultaneidade destas duas estratégias que se revela fundamental para a credibilidade e grandeza da obra de Miles, amplamente demonstradas em exemplos maiores aqui recolhidos, saídos da sua pena ou de terceiros mas sempre tocados pelo sopro de genialidade que lhes era imprimida pela sua directa participação e liderança, alguns deles atingindo o estatuto de peças decisivas e incondicionais:  Nefertiti, E.S.P., Freedom Jazz Dance, R.J., Footprints, Limbo, The Sorcerer, Orbits, Dolores, entre outras.

 

Peças que deixam entrever de forma transparente o segredo da estratégia criativa estabelecida nesta época por Miles Davis:  forçar ao máximo os limites auto-impostos em termos estruturais e formais sem deixar de assegurar, ao mesmo tempo, uma controlada liberdade criativa a todos os protagonistas envolvidos.  Um compromisso tácito amplamente atingido enquanto tal.

_______________________________________________________________

 

(1) The Complete Studio Recordings of the Miles Davis Quintet (1965/1968)

Columbia Legacy AC6K 67398 / Cx. 6 Cds

_______________________________________________________________

 

Músicos de excepção

 

 

Wayne Shorter (saxofonista, 33 anos)  –  a exemplo de Coltrane ou de Evans em períodos anteriores, o saxofonista é, nesta época, o verdadeiro criador-adjunto de Miles.  Brilhante compositor, instrumentista inovador, solista inventivo, pertence-lhe decisiva quota parte na criação da identidade musical deste grupo-referência do jazz moderno.

 

 

 

Herbie Hancock
(pianista, 25 anos)  –  acompanhamento altamente estimulante, domínio excepcional das harmonias e destreza virtuosística nas deambulações melódicas, são as qualidades que fazem dele o apoio instrumental mais desejado, mesmo quando a espaços «parece» recolher-se a um plano secundário.

 

 

 

 

Ron Carter (contrabaixista, 28 anos)  –  metrónomo e diapasão em pessoa, a um tempo disciplinador e desregulador, ele revela-se a todo o momento a base de partida e o lugar de encontro de todas as divagações, indispensável aos fulgores e impetuosidade destas controladas aventuras.

 

 

 

Tony Williams (baterista, 20 anos)  –  o sangue na guelra do mais entusiasmante continuador de «Philly», Elvin e Haynes, ele é o indispensável combustível do verdadeiro motor de propulsão para uma das mais impressionantes máquinas musicais de todos os tempos.

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 17:24
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